Pular para o conteúdo principal

Mart'nália está de volta ao samba

“Quem se atreve a me dizer do que é feito o samba?”, pergunta Mart’nália, renovando sentidos do sucesso do Los Hermanos, ‘Samba a dois’ (Marcelo Camelo), em ‘Mart’nália em samba! Ao vivo’, novo CD/DVD lançado pela gravadora Biscoito Fino. Após o ousado e subestimado disco “sem cuíca, pandeiro e tamborim”, ‘Não tente compreender’ (2012), produzido por Djavan, Mart’nália volta ao gênero que deu fama à família Ferreira. Ela revê sucessos próprios, reverencia raízes, coloca rap no samba e cultiva seu livre trânsito entre diversas vertentes da música popular brasileira. Tudo a sua maneira, com a notória e contagiante carioquice. Estão lá ‘Pé meu samba’ (Caetano Veloso), ‘Ela é minha cara’ (Celso Fonseca/ Ronaldo Bastos), ‘Boto meu povo na rua’ (Arlindo Cruz/ Acyr Marques/ Ronaldinho) e ‘Cabide’, de Ana Carolina, erroneamente creditada a Edel Ferreira Lima (Dida) e Edson Fagundes (Dedé da Portela) no encarte. Na verdade, a dupla é autora do bonito samba ‘Peço a Deus’, gravado por Mestre Marçal e Caetano Veloso em 1985, escolhido para divulgar o novo trabalho. 
Sucessos de Dona Ivone Lara (‘Acreditar’, ‘Mas quem disse que eu te esqueço’ e ‘Sorriso negro’) e de Zeca Pagodinho (‘Coração em desalinho’) reaparecem no extenso roteiro, que também alinha ‘Chiclete com banana’ (Gordurinha/ Almira Castilho), deixa para a entrada do rapper paulistano Emicida, ‘Feitiço da Vila’ (Noel Rosa/ Vadico) e ‘Pra que chorar’ (Baden Powell/ Vinicius de Moraes). Entre a malícia de ‘Casa um da vila’ (Monsueto/ Flora Matos) e a lembrança da mãe, Anália Mendonça, em ‘Maracangalha’ (Dorival Caymmi), Mart’nália presta tributo ao amigo Emílio Santiago (1946 – 2013) em ‘Saigon’ (Claudio Cartier/ Paulo Feital/ Carlão) e ‘Um dia desses’ (Carlinhos Brown/ João Donato), enfileira hits do repertório de Chico Buarque (‘Sem compromisso’, ‘Deixa a menina’ e ‘Quem te viu, quem te vê) e saca um Djavan menos óbvio, ‘Avião’. Além do rap de Emicida (‘Quero ver quarta-feira’), ela também traz o samba de São Paulo na dobradinha ‘Volta por cima’ (Paulo Vanzolini) / ‘Saudosa maloca’ (Adoniram Barbosa).
Gravado durante única apresentação na casa de espetáculos Imperator, no Centro Cultural João Nogueira, no bairro do Méier, zona norte do Rio de Janeiro, o registro audiovisual traz a filha de Martinho José Ferreira, que dirige e participa do show, em casa. Como ela diz a certa altura do show, “o nepotismo rola geral” e nesta roda de samba familiar também estão presentes a irmã Analimar Ventapane (vocal/ percussão) e os sobrinhos Dandara Ventapane (vocal e samba no pé) e Raoni Ventapane (perc ussão). No último bloco, acompanhada do pai, Mart’nália recria ‘Beija, me beija’, ‘Casa de bamba’, ‘Segure tudo’, ‘Nhem nhem nhem’, ‘Roda ciranda’e ‘Madalena do Jucu’. A reconhecida espontaneidade de Mart’nalia faz do DVD mídia imprescindível para a total fruição de sua música longe dos palcos. Nos extras, as inéditas ‘Sinto lhe dizer’ (Moska) e ‘Tem juízo, mas não usa’ (Pedro Luís/ Lula Queiroga), gravadas em estúdio, reiteram que os horizontes musicais de Mart’nália podem ser (ainda) mais amplos, mesmo que alguns não tentem compreender.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A voz do samba - O primeiro disco de Alcione

  “Quando eu não puder pisar mais na Avenida/ Quando as minhas pernas não puderem aguentar/ Levar meu corpo junto com meu samba/ O meu anel de bamba/ Entrego a quem mereça usar”. Ao lançar seu primeiro disco, ‘A voz do samba’, em 1975, Alcione viu os versos melancólicos de ‘Não deixe o samba morrer’ (Edson Conceição/ Aloísio Silva) ganharem o país, tornando-se o primeiro sucesso da jovem cantora. Radicada no Rio de Janeiro desde 1967, a maranhense cantava em casas noturnas que marcaram época nas noites cariocas. Nestas apresentações, seu abrangente repertório incluía diferentes gêneros da música brasileira, além de canções francesas, italianas e norte-americanas também presentes no rádio. Enquanto isso, o samba conquistava novos espaços na década de 1970. Em 1974, Clara Nunes viu sua carreira firmar-se nacionalmente com o disco ‘Alvorecer’, do sucesso de ‘Conto de areia’ (Romildo Bastos/ Toninho Nascimento). No mesmo ano, Beth Carvalho obteve seu primeiro êxito como sambista com ‘1...

'Talismã': Bethânia entre o existencial e o popular - Há 45 anos

          Lançado em 1980, ‘Talismã’ manteve a popularidade e o êxito comercial conquistados por Maria Bethânia com seus álbuns ‘Álibi’ (1978) e ‘Mel’ (1979). Menos sensual e mais existencialista, o disco reúne composições inéditas que se tornaram sucessos, além de regravações de canções dos anos 1950. A tristonha ‘Mentira de amor’ (Lourival Faissal/ Gustavo de Carvalho) e o bolero ‘Eu tenho um pecado novo’ (Alberto Martinez/ Mariano Moares/ versão: Lourival Faissal) foram pinçadas do repertório de Dalva de Oliveira. O samba-canção ‘Cansei de ilusões’ é um clássico de Tito Madi. O mano Caetano comparece com quatro músicas novas: o marcante bolero ‘Vida real’; a delicada ‘Pele’, feita originalmente para Roberto Carlos; o místico samba ‘Gema’ e a impetuosa faixa-título ‘Talismã’, parceria com Waly Salomão. Feliz composição de Dona Ivone Lara, o samba ‘Alguém me avisou’ reúne Bethânia, Caetano e Gilberto Gil e se tornou um dos hits do disco. Gil é o autor de ‘...

Orgulho de um Sambista - Jair Rodrigues e a melancolia dos antigos carnavais

  Jair Rodrigues lançou o álbum ‘Orgulho de um sambista’ pela gravadora Philips em 1973. O samba vivia um momento de revalorização no início da década de 1970 e Jair era um dos principais intérpretes do gênero desde seu disco de estreia, ‘O samba como ele é’ (1964). Em ‘Orgulho de um sambista’, o paulista de Igarapava pôs sua voz poderosa, sua ginga e sua alegria inconfundíveis a serviço de um expressivo repertório. Do conterrâneo Gilson de Souza, Jair gravou quatro composições marcadas por certa melancolia: ‘Sou da madrugada’ (Gilson/ Wando), ‘Carnaval não envelhece’, ‘Folia, carnaval e cinzas’ (Gilson/ Jair Rodrigues) e a faixa-título do disco, que se tornou um sucesso nacional. Como dizia o poeta Vinicius de Moraes: “Pra fazer um samba com beleza, é preciso um bocado de tristeza” – e a mistura de samba, folia e tristeza rendeu outros belos momentos, como ‘Certeza’ (Beto Scala/ São Beto), ‘Estrela do morro’ (Edil Pacheco/ Paulinho Diniz) e o pot-pourri com ‘Ninguém sofre mais...