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Na volta de Toni, Cidade Negra lança o fraco 'Hei, afro!'



‘Eu fui, voltei’, avisa Toni Garrido na faixa que abre ‘Hei, afro!’, CD que marca seu retorno ao Cidade Negra. A retórica supostamente engajada do agora power trio não consegue escamotear o festival de clichês assinados por Toni, Bino Farias e Lazão. Versos infantis como “Falar, até papagaio fala/ E garganta é bom com batata e agrião”, de ‘Só pra detonar’, “Se lembra do tempo da escravidão/ (o tempo não mudou) / levanta pra luta, comprar feijão”, da faixa-título, ou ainda “Posso até não ser rico/ dinheiro não é valor”, de ‘Mole de amor’, atestam a falta de criatividade pela qual os músicos passam. O que dizer de “perdemos o tato, depois o contato/ magia e mago estão no poder”, de ‘Contato’ (Toni/ Bino/ Lazão/ Alexandre Carlo)?
Tampouco funciona a versão de ‘When love comes knockin’ (At your door)’ (Neil Sedaka/ Carole Bayer Sager), transformada em ‘Ninguém pode duvidar de Jah’. Tentando emular seus melhores momentos, o Cidade Negra mistura reggae e pop inconsistentes, sem alcançar um resultado satisfatório. Lugares-comuns característicos do repertório da (outrora) banda ressurgem a cada faixa, como em ‘Diamante’ e em ‘Don’t wait’ (Magary Lord/ Fábio Alcântara/ Leonardo Reis), esta embebida em sonoridade eletrônica. Garrido e companhia tentam retratar o cotidiano do Rio de Janeiro em ‘Paiol de pólvora’, mas novamente tropeçam nos chavões: “O que desperta a cidade/ desperta a periferia”. Mas nada soa mais constrangedor do que a disco ‘Ignorius man’ e seu inacreditável refrão: “Ignorius man/ Ignorius man/ Yaeh, yeah, yeah/ Yeah, yeah, yeah, yeah”, embora o discurso bicho-grilo de ‘Naturaleza’ chegue perto. A fase ruim se estende ao projeto gráfico do CD que, como o irregular repertório, não condiz com o passado de sucessos do Cidade Negra. Faltou ousadia e um bom repertório no retorno do (agora) trio.

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