Segundo disco solo de José Paes Lira, o Lirinha do extinto Cordel do
Fogo Encantado, ‘O labirinto e o desmantelo’ mistura poesia armorial, literatura
de cordel, guitarras, sintetizadores, órgãos e cravos para criar cenários psicodélicos
e sons impressionistas. O romantismo de sotaque regional do artista
pernambucano encontra a universalidade (quase) pop na produção musical do
baterista Pupillo, coautor de seis das onze faixas do álbum, que chega à edição
física via Eletrônica Viva. Distante (mas nem tanto) das viscerais
interpretações dos tempos do Cordel, Lira segue pautando sua música na palavra
quase declamada. Certa ambiência kitsch transpassa algumas faixas de ‘O
labirinto e o desmantelo’, caso de ‘Filtre-me’ (Céu/ Lira/ Pupillo), que tem a participação
especial da cantora e compositora paulista Céu. Bolero tecnopop, ‘Filtre-me’
parece ter saído de uma antiga jukebox
de um poeirento bar de beira de estrada – sonoridade que parece ser perseguida
por muitos artistas novatos: o brega é o novo cool. Com suas guitarras rascantes a bela faixa de abertura, ‘Desamar’
(Lira/ Guri Assis Brasil), se destaca. O uso de instrumentos musicais comumente
ligados à música erudita abrilhanta faixas como ‘Por fora da terra’ (Lira/
Pupillo), com participação do pianista Vitor Araújo (órgão e cravo), e ‘O
mergulho’, com seu trio de sopro formado por Luiz Serralheiro (tuba), Fernando
Chipoletti (trombone) e Douglas Costa (trompa). Contudo, a melhor canção de ‘O
labirinto e o desmantelo’ é a lisérgica balada romântica ‘Jabitacá’ (Lira/ Juno
Barreto/ Bactéria) – ainda que a interpretação de Lira não roce, por motivos
óbvios, a beleza do registro feito por Gal Costa em seu recente disco,
‘Estratosférica’. Enfim, a poesia distintiva de Lira é a senha para
percorrer este interessante labirinto musical.
Jair Rodrigues lançou o álbum ‘Orgulho de um sambista’ pela gravadora Philips em 1973. O samba vivia um momento de revalorização no início da década de 1970 e Jair era um dos principais intérpretes do gênero desde seu disco de estreia, ‘O samba como ele é’ (1964). Em ‘Orgulho de um sambista’, o paulista de Igarapava pôs sua voz poderosa, sua ginga e sua alegria inconfundíveis a serviço de um expressivo repertório. Do conterrâneo Gilson de Souza, Jair gravou quatro composições marcadas por certa melancolia: ‘Sou da madrugada’ (Gilson/ Wando), ‘Carnaval não envelhece’, ‘Folia, carnaval e cinzas’ (Gilson/ Jair Rodrigues) e a faixa-título do disco, que se tornou um sucesso nacional. Como dizia o poeta Vinicius de Moraes: “Pra fazer um samba com beleza, é preciso um bocado de tristeza” – e a mistura de samba, folia e tristeza rendeu outros belos momentos, como ‘Certeza’ (Beto Scala/ São Beto), ‘Estrela do morro’ (Edil Pacheco/ Paulinho Diniz) e o pot-pourri com ‘Ninguém sofre mais...

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